quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Mafiocracia e a arte de furtar a coisa pública

O Brasil é muito mais que uma mafiocracia (uma democracia mafiosa, sugada e sequestrada pelas bandas podres – gananciosas e inescrupulosas – dos donos do poder econômico, financeiro e político), mas é, fundamentalmente, uma mafiocracia. Faz parte de um mundo nada honroso que o autor do livro Arte de furtar chamava de “covil de ladrões” (p. 30). Já as criaturas irracionais e insensíveis vivem de rapinas (animais, aves e peixes, uns comem os outros); mas “as criaturas racionais são as piores de todas, porque lhes sobeja a malícia, que nas outras falta, e com ela trata cada qual de se acrescentar a si. E como o homem de si nada tem próprio, claro está que, se os acrescenta, muitos [ou seja: a parte que se acumula ilicitamente ou indevidamente] hão-de ser alheios” (p. 30).
A todos que estupefatos, estarrecidos e indignados estão acompanhando (ou conhecendo), com exuberância de detalhes, os estratagemas e os enganos empregados nos escândalos da Petrobras (Operação Lava Jato), do metrô de São Paulo, nos mensalões do PT e do PSDB, nas falcatruas e conluios praticados pelo PMDB, PP e tantos outros partidos e políticos, cabe recordar a lição número um que se extrai do livro Arte de furtar (p. 44): “Se os ladrões não tiverem arte, busquem outro ofício; por mais que a este os leve e ajude a natureza, se não alentarem esta [a habilidade para a ladroagem, particularmente da coisa pública] com os conhecimentos da arte, terão mais perdas que ganhos”.
Sem competências e habilidades específicas o melhor é não se dedicar à arte de furtar. Por quê? Porque são infinitas as contrariedades que perseguem os ladrões. Não há “profissão” sem riscos e obstáculos (má-fama, perseguições policiais, eventualmente alguns anos de cadeia). Mas a julgar pelo sucesso que vemos estampado em suas carreiras gloriosas, ao menos nas pátrias mafiocratas muito provavelmente o crime ainda conta com seu lado compensador).
Quando os vemos continuar no ofício ilesos [por anos a fio, ocupando inclusive os máximos cargos políticos da República: presidência, vice-presidência, presidência das Casas Parlamentares, deputados, senadores, governadores etc.], “não podemos deixar de o atribuir à destreza de sua arte, que os livra até da justiça mais vigilante, deslumbrando-a por mil modos ou obrigando-a que os largue e tolere, porque até para isso têm os ladrões [muita] arte”. Como se explica que uma denúncia apresentada contra um dos próceres do PMDB, presidente do Senado, tenha permanecido no STF por mais de dois anos sem nenhum tipo de apreciação? “Não perde a arte seu ser por fazer [o] mal (…) se este mal é feito para a produção de um bem, ainda que seja ilícito” (Arte de furtar, p. 43).
Sobre o livro. O absolutamente imperdível livro A arte de furtar teria sido escrito em 1652 (data bastante provável). É considerado um dos maiores monumentos literários da prosa barroca portuguesa. Desde 1940, a discutidíssima autoria do livro é atribuída –convincentemente – ao padre jesuíta Manuel da Costa (1601-1667) (veja Wikipedia). Trata-se de uma obra emblemática do período da Restauração da Independência de Portugal (1640), que passa para a regência de D. João IV, a quem o livro é dedicado. Retrata os costumes portugueses (assim como da colônia brasileira) dos séculos XVI a XVIII. Não há ladrão que não esteja descrito nele: pobre ou rico, astuto ou violento, da coisa privada ou da coisa pública. Não se ensina a furtar, sim, “ensina só a conhecê-los, para os evitar” (p. 30).
O livro permaneceu como um manuscrito por quase um século. Seu autor não quis pedir autorização oficial para a sua publicação, que aconteceu em 1743 (ou 1744), em Lisboa (de forma camuflada, atribuindo-se a autoria, nessa época, ao padre Antonio Vieira). Sua atualidade impressiona tanto quanto sua eloquência vernacular, que descreve, com veemência, os costumes de um tempo que ainda não se distanciou do nosso cotidiano. Cuida-se da “sátira mais cruel que jamais se escreveu contra os costumes políticos no desenho das figuras ridículas e brutescas, cheias de alusões pessoais e contra pessoas de graves responsabilidades” (veja João Ribeiro, estudo crítico do livro feito em 1906, quando se atribuía sua autoria a Thomé da Veiga – Arte de furtar, 2ª edição, São Paulo: Martin Claret, 2006).
O aval de João Ubaldo Ribeiro. No final do segundo milênio, na apresentação de uma edição do livro A arte de furtar (cuja autoria é atribuída ao Padre Manuel da Costa – 1601-1667), João Ubaldo proclamou o seguinte: “Na nossa arrogância (de final de milênio), julgamos recém-inventados [os nossos vícios, particularmente o da corrupção], mas já há séculos eram notavelmente concebidos e executados [como mostra o livro citado]. Apesar de distante [o livro teria sido escrito no século XVII, mais precisamente em 1652], constitui espelho nítido, exibindo inquietantemente o que vemos em torno e lançando perguntas aos rostos que reflete: Disto não se sai? Somos hoje o que sempre fomos ancestralmente? Somos o único povo a padecer sempre das mesmas mazelas, a elas para sempre condenado? A natureza humana será imutável e ineducável, o homem será sempre o lobo do homem, a desconfiança haverá sempre de ser regra, a má vontade norma, o pé-atrás a prática, o cinismo a defesa, policiamento onipresente a solução, abdicar do sonho uma necessidade, cuidar cada um só de si um imperativo?”
João Ubaldo, depois de todas essas pregnantes perguntas acrescentou: “Não sabemos as respostas, mas temos o consolo, se bem que parco, de lembrar que não somos os primeiros, nem os únicos, nem os últimos, a encarar estas indagações, nos muitos espelhos que nos defrontam todos os dias, como os que nos oferece Arte de furtar (o mais brilhante exemplo de prosa barroca panfletária em nossa língua e uma joia literária sob qualquer critério)”.

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